1. EDITORIAL 13.2.13

"A UTOPIA PARLAMENTAR"
 Carlos Jos Marques, diretor editorial

Congressistas brasileiros mostram sinais concretos de que acreditam piamente viver em um mundo de fantasia particular, sem a necessidade de prestar contas sobre atos e decises. Fulminam com soberba e ironia o senso comum, confrontam leis e juzes, amarrotam a legitimidade do voto que recebem e fecham acordos imprprios apesar dos protestos. Do alto da tribuna desdenham do sentimento geral de indignao e, sem constrangimento, colocam os interesses estritamente particulares, e de seus pares, acima do interesse pblico. Foi assim mais uma vez para consagrar na presidncia do Senado e da Cmara dos Deputados, respectivamente, os nomes de Renan Calheiros e Henrique Eduardo Alves. Ambos peemedebistas com uma avalanche de suspeitas a pesar sobre suas biografias. Nada levou a bancada das duas casas a recuar um milmetro sequer na determinao de entronizar os escolhidos. Um misto de fisiologismo, conchavo e clientelismo, o todo movido pela nsia de angariar mais e mais vantagens, provocou a combinao perfeita que deu cabo  negociata partidria. O estandarte da decadncia poltica foi mais uma vez erguido naquela Casa, maculando reputaes dos que participaram da espria aliana. Os envolvidos fizeram ouvidos moucos ao grito das ruas. A dupla Calheiros/Alves,  revelia de suas dvidas com a Justia e o decoro, assumiu assim a condio de altas patentes na esfera do poder federal, entrando na linha sucessria direta da presidncia como terceiro e quarto substitutos legtimos a ocupar a cadeira em caso de ausncia da titular. Renan Calheiros, num trao de completo descaso s crticas que recebeu, ousou falar em tica durante o seu discurso de posse  tica como meio no como fim, disse, esquecendo tratar-se na verdade do princpio, um valor de conduta inegocivel. Ao lado do conterrneo e antigo aliado, Fernando Collor (esse apeado da presidncia em rumoroso processo de impeachment nos anos 90) repetiu sorrisos de vitria pela situao. Ambos esto descompromissados com o seu passado e pareciam gozar, naquele momento, a tal utopia parlamentar. A reiterada convico de que, no importam os erros ou falhas, eles sero sempre reconduzidos  condio de destaque na cena poltica, por obra e graa dos lapsos de memria dos eleitores na hora das urnas. Ledo engano. O voto conquistado no se presta a ofensas, nem est ali para deleite e ambies pessoais. O compadrio tem seu preo e a conta ainda vai voltar, alta.

